
O barulho das buzinas no congestionamento, somado com a algazarra dos dois filhos de João no banco de trás, minimizam a voz de sua esposa, que está há exatos vinte e três minutos falando algo que em resumo tem apenas um sentido: “João, minha mãe estava certa, você é mesmo um fracassado. Não deveria ter me casado com você. Olha quantas oportunidades perdi por sua causa, seu traste!”
Se já não bastasse ter que passar o almoço de domingo na casa da sua sogra, onde certamente é uma filial do inferno na terra, tendo a velha como gerente escolhida a dedo pelo próprio Satã, agora voltando pra casa, João se vê preso a toda aquela ladainha que Joana lhe enfia garganta abaixo, ou melhor: ouvido adentro!
Fora do carro, uma tarde escaldante de verão. No parque ao lado da avenida, mães estão correndo desesperadas atrás de seus filhos gritando para que tenham cuidado. Crianças correndo atrás de seus cachorros, que por sua vez correm atrás dos pássaros. Pessoas caminham pela calçada, outras se sentam pra relaxar ou ler sob a sombra das árvores. E João continua sem se mover dentro do carro. Trinta e dois minutos do mesmo monólogo, e para tentar distrair sua atenção, ele observa atentamente um rapaz na calçada que está agachado há muito tempo.
- Olha que cara de pau, fingindo amarrar o tênis pra ficar olhando a bunda da mulherada que está caminhando. Essa rapaziada solteira de hoje é tudo igual, parecem estar em um cio continuo! – Pensou João.
Começou a fitar o rapaz. Sentia vontade de ser como ele, livre para cantar a mulherada; ficar parado vendo elas passarem pelo calçadão; sair com os amigos pra beber e festar até de madrugada. Tudo aquilo que fazia quando solteiro e hoje está proibido de fazer. Pensando nisso se deu conta de que também estava parado vendo sua vida passar. Percebeu que perdeu sua juventude em um casamento onde o amor foi apenas um conto de fadas, com um belo começo parado no meio. Um casamento que agora se tornou algo completamente vazio de sentimentos.
Voltou em pensamento no passado. Revirou suas memórias e lembrou-se do tempo da faculdade, a fase que mais aproveitou de sua vida. Lembrou também de Fernanda, sua paixão platônica. Nesse momento já não ouvia mais nada. Trânsito; crianças; até Joana já não ouvia mais, ela apenas movimentava a boca sem emitir som. Tudo parou. E no sacrário de seus pensamentos começou a imaginar como seria a vida se tivesse casado com Fernandinha. Afinal, eles tinham uma queda um pelo outro, mas nunca chegaram a namorar.
Imaginou a adorável mãe de Fernandinha lhe fazendo macarrão no domingo. Viu os filhos que teriam; o apartamento; o escritório; imaginou até como seria a viagem que gostariam de ter feito a Fernando de Noronha no final daquele ano da faculdade. E sem muito se esforçar, imaginou a Fernanda semi-nua – ou seja, usando apenas uma meia soquete – enquanto marcava satisfeita a última página executada do kama sutra e lhe convidava para tentar o próximo capítulo !
- Onde eu estou – Gritou João. O trânsito já havia se movimentado e João estava sendo sacudido violentamente por Joana.
- Você está bloqueando o trânsito seu inútil. Está vendo, até nisso você me atrasa! – gritou ela.
- Mas eu não estava aqui, eu estava lá no apartamento! – disse ele, enquanto tentava se localizar.
- Apartamento? Que apartamento? Já sei! O apartamento que você nunca me comprou porque ainda trabalha naquele emprego de merda desde que nos conhecemos! - disse ela enquanto fazia sinal para que as crianças se calassem.
Já chega! – Gritou ele batendo as mãos sobre o volante. João abriu a porta, saiu do carro e por um segundo desejou inúmeras coisas, dentre elas não estar ali, ou até em passar com o carro por cima de Joana. Mas sua fúria foi vencida por dois olhares cheios de lágrimas. Seus filhos o olhavam pela janela assustados. Recobrou a consciência enquanto sentia seu coração partir. Entrou novamente no carro calmamente e foi para casa sem dizer uma palavra. Novamente preso. Mas com um só pensamento: “Deveria ter me casado com a Fernandinha!”
Delirado por Quick em:
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Semeando a loucura:



1 "FALA QUE EU TE ESCUTO!" (SAP):
Fico muito feliz que vc tenha voltado a ativa com um texto massa assim!!!!
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